Domingo, Agosto 14, 2011

uma boa luz

Um amigo, secretário de estado, ligou-me convidando-me e estendendo o convite à minha esposa para irmos, os dois casais, a uma estância pouco afastada da capital para um jantar onde serviriam comidas peruanas.

Convite aceito. Minha esposa é peruana e eu sou apaixonado pelas iguarias daquelas paragens. A estância se chama Boa Luz, freqüentada por gente de boa cepa, e se configura, como publiciza em anúncios, como uma mescla de hotel fazenda e zoológico.
A comida estava correta, mas alguns pratos ficaram a desejar, porque o chefe teve dificuldade em encontrar alguns ingredientes que acabaram fazendo toda a diferença no resultado final. Sabemos todos que a alquimia necessita da dose certa de insubstituíveis elementos.
O clima estava agradabilíssimo, havia uma lua cheia no céu, cuja luz banhava a nossa mesa e ressaltava a luz da tintura dos cabelos de nossas consortes. Na verdade com sorte éramos nós, eu e o amigo.

As botellas de um pinot noir chileno delicioso começaram a brotar na mesa. O riso ficou leve e a conversa descontraída. Um jovem fidalgo veio sentar-se à mesa conosco. Tilintamos as taças e sorvemos o divino líquido que já foi a maior motivação de culto ao Deus Dionísio (Baco) e regou bacanais; o mesmo líquido que obrigara Jesus, o Cristo, a fazer o seu primeiro milagre, livrando os anfitriões de uma boda de indesculpável constrangimento.
Lá pelas tantas, já tontos, depois de ter elogiado muito o trabalho modernizador do prefeito de Aracaju, o jovem fidalgo passou a discorrer sobre trânsito e aí começou a falar do Brasil inteiro. A mobilidade urbana era o tema. O rapaz, então, falou do número excessivo de carros, que isso era sinal de atraso, que o Brasil estava na contra-mão do mundo, que os holandeses andavam de bicicleta (como ele havia visto a olho nu), e que deveríamos fazer como Nova Iorque que cobra caro para quem quer entrar nas ruas usando um automóvel particular.
Disse tudo isso e, em um só gole, fez sumir o líquido da metade de uma taça. Pedi um aparte e fui logo pro J’accuse. Disse que ele tinha uma visão aristocrática do mundo, o que era natural por ser ele um fidalgo. Eu disse que alguns brasileiros só passaram a reparar que os holandeses andavam de bicicleta ontem, porque no Brasil garçons, domésticas, porteiros, padeiros e vendedores de amendoim passaram a ter automóveis.
Enquanto os descendentes dos senhores de engenho - afinal estamos em um estado que foi escravocrata e ainda mantém algumas nuances escravagistas - faziam sair monóxido de carbono dos automóveis, estava tudo muito lindo. Agora engarrafou! 
Melhor seria termos um transporte público de qualidade, para que garçons, padeiros e pedreiros voltassem aos trens. Mesmo porque não haverá transporte público para levar o nosso garboso mancebo até um hotel fazenda.
Perguntei se o jovem tinha ido até a Holanda de bicicleta, ele achou graça e disse que foi de avião. Eu disse a ele que o avião polui mais que o automóvel e que, por isso mesmo, não fazia o menor sentido o elogio que ele fazia ao povo dos Países Baixos.
Que era igualmente elitista a solução que ele disse ter visto em outras terras estranjeiras. Se uma cidade, nas estranjas, permite quem tem dinheiro usar um automóvel e obriga quem não tem a andar de ônibus, essa cidade é um mal exemplo. Embora por aqui sirva de grande exemplo para os endinheirados que tentam alçar voo por nossas vias e são impedidos porque há muitos carros 1.0 a atravancar-lhes o caminho.
Disse ao atônito rapaz que a solução das bicicletas era igualmente hipócrita. Que os chineses andavam de bicicleta quando eram pobres e o ocidente via nisso a pobreza do comunismo a obrigar a sua gente ao atraso. Agora que os chineses se endinheiraram e andam em veículos possantes o mundo quer vê-los novamente em bicicletas porque dizem que o carro é sinal de atraso.
Disse ao imberbe interlocutor que sou de Brasília e que lá o clima é mais seco do que no deserto do Saara, não é tão agradável como o clima de Amsterdã, e que seria um enorme desconforto ir ao trabalho à tarde com um sol muito quente num clima muito seco, além do mais no DF os trabalhadores percorrem longas distâncias até chegarem ao trabalho. E além disso, frisei que com uma pele tão alva, o nosso ciclista de última hora seria desaconselhado pelo dermatologista da família a empregar essa atlética fórmula de altruísmo civil.
E que por fim todo esse colapso carece de solução, mas é ao mesmo tempo louvável. É sinal de um país de economia pujante, que cresce e oferece oportunidades para todos. Um país em que patrões e empregados param lado a lado no sinal vermelho. Em que o vendedor de amendoim, muito civilizadamente, para na faixa de pedestre para a madame atravessar com o seu cachorrinho de pedigree europeu.
Todos têm direito a um automóvel, gritei erguendo a taça, e o estado tem a obrigação de criar alternativas para que todos exerçam esse direito.
Brindamos, sorrimos bastante e mudamos de assunto. 


Lelê Teles

1 comentários:

Um Dia Especial disse...

Oi Lelê, concordo em parte com vc, mas acho que hj esta questão do transporte transcende estas questões, veja esta matéria http://www1.folha.uol.com.br/mundo/935607-irritar-motoristas-faz-parte-da-politica-urbana-em-boa-parte-da-europa.shtml