Quinta-feira, Julho 22, 2010

NO FINAL DE 2010 FINDA O MUNDO PARA OS MAIA

eu em momento brainstorming

Os maias foram aquela civilização maravilhosa que floresceu na América Central. Embora vivessem em magníficas edificações, trabalhassem o ouro de forma artística e tivessem um extraordinário conhecimento matemático, inclusive com o número zero, são tratados pela historiografia canônica e eurocêntrica como indígenas. Claro que o epíteto indígena aqui tem uma conotação pejorativa.

Após o declínio da civilização maia, floresceu, nos andes, a civilização inca, moderna em quase tudo. Abrigava cerca de dez milhões de indivíduos. Trabalhavam o ouro, a prata e o cobre, exímios construtores, erigiram edificações que desafiam a compreensão de engenheiros até hoje, mesmo usando as mais modernas tecnologias; a capital do império inca, Cuzco, era superior a tudo o que existia na Europa.

No entanto, Pizarro, o bizarro personagem ibérico que veio conquistar aquela região, era um imundo soldado raso e analfabeto, e trouxe uma malta de doentes com ele. Ao contrário do que se imagina, não foi Saddam Hussein o primeiro a usar arma biológica em uma batalha, foi Pizarro.

Ao chegar ao continente novo com a sua virótica gente, abateu os povos de cá com inúmeras moléstias, tendo feito o povo sucumbir pelas suas imundícies, mais que por sua astúcia.

Pois veja você, um povo que vivia em cidades fortificadas, com uma população maior que a de qualquer cidade europeia, com prédios públicos, templos, com conhecimento de astrologia e astronomia, com um maravilhoso e preciso calendário que os ajudava a metrificar o tempo, prever as estações, plantar e colher sem sobressaltos, é chamado de selvagem ou indígena. E um povo jovem, que herdou quase tudo o que sabia dos exploradores árabes e romanos, é chamado civilizado.

A Espanha de hoje, embora seja um país, ainda nem é uma nação, e talvez nunca venha a ser. Mas voltemos aos maias. Por falar em maia e índio, lembrei-me agora, ventilam por essas paragens que o povo maia previu o fim do mundo para 2012. Quais Maias?

Para César Maia e Rodrigo Maia, da tribo do cacique da Costa, o mundo desaba no final de 2010.

DEFICIENTES CÍVICOS

O presidente Lula sancionou no dia 20 a Lei do Estatuto da Igualdade Racial. Um enorme avanço para esta nação racista. No entanto, o sistema de cotas para negros nas universidades e nas inscrições de candidatos nas eleições foi retirado do texto final. Um grande atraso.

O DEM, foi à justiça contra as cotas para negros. Ali Kamel usou as Organizações Globo para pregar o seu discurso racista de que não existem raças e nem racismo no Brasil. No Brasil, para os racistas, as raças só existem quando querem justificar que o Brasil é uma país miscigenado, que nasceu da mistura de 3 RAÇAS. Mas na hora de assegurar direitos, a raça desaparece.

Com um cientificismo raso dizem que a biologia não determina a existência de raças. Mas no afã de se fazerem assertivos selecionam malandramente o apelo científico que lhes ratifica o discurso. À luz das ciências sociais o conceito de raça está mais do que claro. Raça é uma categoria social. Porque é socialmente que ela se afigura como uma realidade. O negro não é simplesmente uma cor, negro como raça é mais do que cor. Preto é cor, negro é raça. Pode-se se dizer que todo preto é negro, mas nem todo negro é preto. Os negros são os não-brancos, são os pretos, os pardos, os mulatos, os que sofrem discriminação no trabalho, nos shopping centers e que são alvo preferencial de policiais e seguranças. Na sociedade não faltam agentes qualificados para identificar um negro. Embora todos eles digam que o negro não existe. Talvez queiram dizer que o negro não deveria existir.

Na copa do mundo realizada na África do Sul, o tratamento dado àquele país pelo aparato midiático tupiniquim destoou de tudo o que já se viu na cobertura de uma copa. O que soubemos sobre a África do Sul? O que nos contaram sobre a literatura, a música, as edificações, a poesia, os teatros, cabarés, bares, boates, shoppings, praças... o que soubemos sobre a África do Sul além do clichê que já conhecíamos?

Pela primeira vez na minha vida eu ouvi narradores e comentaristas esportivos reclamando do barulho de uma torcida. Falavam das infernais vuvuzelas. As vuvuzelas são velhas cornetas conhecidas dos estádios brasileiros, nem são uma novidade. A novidade foi vê-las sopradas pela boca de negros alegres. Incomodou. Lembro que os nossos narradores falam com entusiasmo sobre os estádios argentinos onde os torcedores não param de gritar e cantar, mesmo que o seu time esteja perdendo. Mas os negros são barulhentos.

Embora as televisões mostrassem estadunidenses, suecos, holandeses, japoneses e alemães tocando vuvuzelas, os narradores insistiam que o barulho incomodava. Se incomodava por que os não-africanos estavam tocando? O que incomodava é que o som lembrava os negros a tocar, felizes e sorridentes.

Lelê Teles, aracajour

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