Quarta-feira, Maio 12, 2010

SERRA ABAIXO

alfred-eisenstadt
SERRA KISS MAS AÉCIO NÃO QUIS

Seguindo ainda Marcel Mauss na trilha antropológica da Expressão Obrigatória dos Sentimentos, podemos descrever o beijo, ou o ósculo, como gestos mágicos carregados de simbolismos. O beijo do soldado americano em uma enfermeira, desfalecida em seus braços, imortalizado pela lente apaixonada de Alfred Eisenstaedt, simbolizou o fim da segunda guerra mundial. Caravaggio “fotografou” de forma magistral o beijo símbolo da traição no momento em que a face esquerda do Carpinteiro da Galileia será tocada pelos pérfidos lábios do Homem de Kerioth. Clark Gable e Vivian Leighe protagonizaram o beijo mais famoso do cinema. Podíamos ficar aqui semanas só registrando ósculos e beijos, mas paremos com esse aí do alto. Note que o beijoqueiro avança com ímpeto. O imberbe Aécio tenta contê-lo. Com a mão direita empurra Serra pra trás (note a posição do polegar opositor), e com a mão esquerda esgana o “ectoplasma”, simbolicamente. Quando um tucano não quer, dois não se bicam. Mas Serra não se faz de rogado. O pescoço se estica como o de um cágado, o bico se assanha. Note a mão esquerda de Serra e as rugas na blusa de Aécio. Enquanto Aécio o impele para fora, Serra se “puxa” pra dentro. Dias depois Aécio deixou crescer a barba. Simbolizando a repulsa. Serra não ousaria beijar um homem de barbas.

O LEÃO E A ALFACE

Quando disputou a eleição contra o Lulinha paz e Amor, Serra disse que o povo não entraria nessa jogada de marketing porque estranharia ver um leão comendo alface. Pois Serra agora adotou a mesma dieta. Mas sabe como é, dieta não pode ser imposta, quando a pessoa está disposta a entrar numa dieta ela tem tudo para dar certo, mas quando é uma imposição de fora, a pessoa tende a recaídas. E Serra, que já mandou demitir jornalistas, agora encena uma de bom moço engraçadinho. Mas já se indispôs pelo menos três vezes contra jornalistas. Chamou uma de petista, mandou outra se informar melhor e agora deu uma bronca de chefe na urubóloga Míriam Leitão, uma aliada dele (e agora mandou um recado aos patrões de outra repórter) Acordar cedo e comer alface não está fazendo bem a Serra.

BRASÍLIA 50 ÂNUS

Brasília representava o sonho mudancista, a interiorização da capital e a ocupação do Brasil central. JK, como um faraó, erigiu uma cidade faraônica, com algumas pirâmides, inclusive uma pirâmide túmulo onde está “enterrado”. Como um Pacal, adornou de arte a sua cidade futurista. Do chão afloraram palácios, brotaram catedrais, nasceram monumentos. Mas, como as pirâmides do Egito e das Américas pré-colombianas tudo foi construído com suor, o sangue e a vida de uma multidão. Em Brasília, 60 mil peões vieram de pau de arara, a maioria nem conhecia edificações em alvenaria ou máquinas. Muitos foram mutilados, muitos morreram e nem tiveram covas, viraram alicerces. No acampamento Pacheco Fernandes, os operários que reclamaram da comida foram fuzilados pelo exército.

Ao concluírem uma das cidades mais bonitas do mundo, os sobreviventes foram despejados nas longínquas cidades-satélites, ocupando barracos de madeira: sem água encanada, sem energia elétrica e sem esgoto. Hoje 29 cidades orbitam Brasília. A pobreza aumenta. E a cidade-presépio vive um drama demográfico. Os carros congestionam avenidas, os engarrafamentos aumentam, o metrô não suporta tanta gente, o transporte público é um vergonhoso cartel, os lixões se proliferam, como proliferam as máfias dos concursos e da grilagem de terras públicas; a corrupção é endêmica. Um deputado acaba de sair do presídio e assumir uma vaga na Câmara Legislativa. É o Detrito Federal.

Lelê Teles, Brasília

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